KAFKA – ESCREVER É UM SONO MAIS PROFUNDO DO QUE A MORTE (2009) - Delírio
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KAFKA – ESCREVER É UM SONO MAIS PROFUNDO DO QUE A MORTE (2009)

UMA ESPECULAÇÃO PERIGOSA E IRRESPONSÁVEL SOBRE A INFÂNCIA DE FRANZ… KAFKA!

 

“Antes de ser adjetivo, Franz Kafka (1883-1924) era um judeu de Praga, nascido na inescapável tradição de fantasiosos contadores de histórias, habitantes do gueto e refugiados eternos.

 

Praga, na época do nascimento de Kafka, em 1883, ainda fazia parte do império dos Habsburgos na Boêmia, onde coexistiam, para o bem ou para o mal, várias nacionalidades, linguagens e orientações políticas e sociais. Para Kafka, nascido checo e falando alemão, mas na verdade nem checo nem alemão, não era fácil formar uma identidade cultural clara.

 

Não é preciso dizer que, para um judeu nesse meio, a vida era um delicado equilíbrio. Você se identificava primeiramente com a cultura alemã, mas vivia entre os checos. Falava alemão porque era parecido com o ídiche e era a língua oficial do império. O nacionalismo checo crescia contra a predominância alemã, e os alemães geralmente tratavam os checos com desdém. E, é claro, TODOS odiavam os judeus.”

 

Este fragmento, extraído do livro “Kafka de Crumb”, faz um panorama simples e veloz do começo da vida daquele que é um dos maiores e mais originais escritores do século XX: Franz Kafka!  Autor de verdadeiras obras-primas conhecidíssimas como “O Processo”, “A Metamorfose”, “O Castelo”, “Na Colônia Penal” e “Carta ao Pai”, Kafka teve uma vida confusa, dolorosa e intensa, intelectualmente falando. Seus escritos relataram de forma expressionista, mas de precisão cruelmente cirúrgica, a condição humana diante da autoridade superior inatingível, fosse ela representada pelo governo, pela burocracia, pelo patrão, pelo policial, pela figura paterna ou até mesmo pelos fantasmas habitantes da vida interior. Seus personagens, acompanhando seu próprio sentimento diante da vida, reduziam-se, transformavam-se, decaíam e pereciam diante da doença que, segundo ele, era a própria condição humana. Jean-Paul Sartre chamou-o de existencialista, Albert Camus definiu-o como um teórico do Absurdo. Era uma figura ímpar. Nunca se sentiu pertencente a uma classe ou a uma pátria ou mesmo, à sua própria língua. Nem mesmo se sentiu pertencente à sua família. Seu pai, comerciante severíssimo e imponente, sempre mandou na casa com uma autoridade nada sutil. Em seu livro “Carta ao Pai”, Kafka faz um testemunho pungente de sua relação com ele. Seu pai passou à história como mais um dos personagens do escritor, como uma espécie de personificação macabra de tudo o que, já na juventude, assombrava Franz Kafka : o poder, o castigo e a morte. A vida, segundo a literatura de Kafka, é uma eterna incompreensão e o mundo, uma insensatez.

 

“Toda a educação assenta nestes dois princípios: primeiro, repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade e depois, iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo.”

 

Como teria sido a infância de Franz Kafka? Como poderia ter sido? Ou melhor, como poderia ter sido uma infância de um Franz Kafka? É desta brincadeira macabra que nasce esse nosso espetáculo. Transformamos o mais famoso escritor do século XX num personagem dele mesmo e jogamos com suas palavras, seu tempo, suas ideias e obsessões. O objetivo? Um sentimento artístico muito puro, mas bem pouco inocente. Um desejo de manipulação subjetiva, quando queremos transformá-lo num personagem dele mesmo e, percorrendo verdades históricas como racismo, preconceito, fascismo, acrescidos de lendas e abismos psicológicos familiares, sugerimos (irresponsavelmente!) que sua imaginação peculiar estava pronta para fazer dele o escritor que foi. Ao mesmo tempo dialogamos com a infância, suas assombrações e suas ansiedades. É muito? Talvez nem tanto, quando ainda usamos e abusamos de seus romances, contos e aforismos para construir uma outra história dele mesmo. Conta-se que, quando Kafka lia trechos de “O Processo” em voz alta para seus amigos, ria incontrolavelmente! Nosso espetáculo não chega a tanto, mas procura seguir os passos de nosso escritor preferido, ao transformá-lo num personagem de ficção, vítima de sua própria literatura. Esperamos que por essa heresia, não venhamos a receber numa manhã qualquer, a visita de policiais que nos levarão a intrínsecos corredores de um julgamento que, fatalmente, nos conduzirá à condenação. Mas se isso vier a acontecer… bem, nada mais kafkiano!

Edson Bueno

Texto e direção  EDSON BUENO

 

Elenco

REGINA BASTOS

MARCEL GRITTEN

DIEGO MARCHIORO

MARTINA GALLARZA

GUILHERME FERNANDES

EDSON BUENO

 

Cenografia                          GELSON AMARAL

Figurinos e Maquiagem  ÁLDICE LOPES

Iluminação  BETO BRUEL

Sonoplastia  CHICO NOGUEIRA

Adereços  ALFREDO GOMES

Programação Visual  MARCOS MININI

Cenotécnico  SERGIO RICHTER/PROCENIUM

Operação de Luz  FERNANDO ALBUQUERQUE

Operação de Som  LEONARDO PIMENTEL

 

Direção de Produção  DIEGO MARCHIORO

 

Realização  GRUPO DELÍRIO CIA. DE TEATRO

 

Este espetáculo estreou no mês de junho de 2009 no Teatro Novelas Curitibanas – Curitiba/PR

Troféu Gralha Azul – edição de 2009, para os melhores do Teatro Paranaense:

. Melhor espetáculo

. Melhor texto – Edson Bueno

. Melhor direção – Edson Bueno

. Melhor ator coadjuvante – Edson Bueno

. Melhores adereços – Alfredo Gomes

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KAFKA POR EDSON BUENO

Postado por Ruy Barrozo em 25/06/2009

Jornal JORNALE/CURITIBA

Uma especulação perigosa e irresponsável sobre a infância de Franz… Kafka! É assim que o diretor e autor Edson Bueno define sua mais nova peça que estreou ontem no Teatro Novelas Curitibanas. A peça trata de uma noite no gueto judeu em Praga, mais precisamente na cozinha da família Kafka.
O assassinato de uma prostituta católica e a perseguição ao assassino judeu em contraponto com a narrativa dos escritos de Kafka e algumas de suas “personas” mais conhecidas é à base da estória de Bueno que se desenvolve de forma linear, deixando a platéia hipnotizada
– e por vezes aterrorizada com a natureza humana – do começo ao fim do espetáculo.
Marcel Gritten (o jovem Kafka) e Martina Gallarza brilham no palco. O desespero e ansiedades do protagonista são sentidos de perto pelo público, fazendo com que a “especulação” do autor nos dê sérios indícios da verdade no amadurecimento do perturbado e brilhante escritor Franz
Kafka.
A construção da personagem de Martina é absolutamente irretocável. Talvez ela possua o mais belo e expressivo par de olhos da dramaturgia paranaense. Diego Marchioro executa o papel com extrema competência, mas suas limitações físicas o impedem de crescer.
A promessa de Romeu e Julieta, Guilherme Fernandes, fica na promessa, o jovem ator catarinense não tem peso para o papel que desempenha. Regina Bastos, usualmente excelente, não se dá conta do desespero que o turbilhão de acontecimentos externos desperta, nem do pavor dentro do peito do próprio filho – fica solitária na peça.
Edson Bueno é um assombro com as palavras que nos deslumbram e fazem pensar. Como ator está irreconhecível no papel de pai do protagonista, um homem tão simples e duro que choca, mas não deixa de causar certa ternura pela dor que carrega.
Aldice Lopes, responsável pela maquiagem e figurinos, entendeu e soube extrapolar o que há na alma de cada um dos elementos desta importante obra.
Vale a pena conferir!

Kafka – Escrever É um Sono Mais Profundo do Que a Morte.
Teatro Novelas Curitibanas (R. Presidente Carlos Cavalcanti, 1.222), (41) 3321-3358.
Texto e direção de Edson Bueno.
Com Regina Bastos, Marcel Gritten, Diego Marchioro, Martina Gallarza e Guilherme Fernandes. Quinta-feira a sábado às 21 horas e domingo às 19 horas.
Ingresso é uma lata de leite em pó

 

Talentosa, francesa Muriel Barbery cria impacto como Kafka

Segundo romance de jovem autora, “A Elegância do Ouriço” recebeu boas avaliações e teve êxito comercial na França

MARCELO PEN
CRÍTICO DA FOLHA

Na superfície, Renée Michel se molda ao clichê da “concierge” parisiense. A zeladora do palacete burguês situado no número 7 da rue de Grenelle é, como ela própria se define, “viúva, baixinha, feia, gordinha”.
Seria o protótipo da concierge rabugenta e insignificante, não fosse por um detalhe, que apenas os leitores conhecem e ela se esforça por esconder. Ela é um ser refinado, que se deleita com os filmes de Yasujiro Ozu, aprecia Mozart, lê pensadores como Husserl e Marx (“para a elevação da alma”) e se apraz com escritores russos, especialmente Tolstói.
Renée -protagonista deste segundo romance de Muriel Barbery- porta a “elegância do ouriço” de que fala o título: “por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza […] dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes”.
O livro obteve boas críticas e êxito comercial na França. Curiosamente, esteve na lista dos mais vendidos naquele país junto de “As Benevolentes”, de Jonathan Littell (Alfaguara).
Os dois livros são relatos de personagens que devotam à humanidade desconfiança ou desprezo (o de Littell traz um oficial nazista), embora conservem um fundo de sensibilidade que se traduz por sua apreciação da arte.
A arte é, para Renée, tudo o que lhe resta; o seu refúgio do determinismo social e do destino biológico. Afina-se, desse modo, com Paloma Josse, a superdotada filha de um de seus patrões. Aos 12 anos, a menina está determinada a suicidar-se no dia de seu aniversário.
O gênio constitui-lhe um fardo. “Se a existência é um absurdo, ser brilhantemente bem-sucedido tem tanto valor quanto fracassar”, raciocina. Enquanto isso, Paloma dedica-se a “apreciar o movimento do mundo para descobrir algo que seja estético suficiente para dar valor à vida”.
Cada uma à sua maneira, portanto, Renée e Paloma buscam a validação estética para a existência. Mesmo a concierge, às voltas com a pergunta “para que serve a arte?”, não a dissocia totalmente da vida. A resposta para as indagações das duas se dá com a introdução de um terceiro personagem, o japonês Kakuro Ozu. Delicado, diletante, alheio ao protocolo parisiense, ele descobre o refinamento de Renée e a inteligência de Paloma e dá oportunidade para que ambas manifestem suas qualidades ocultas.
Não é de hoje que a arte européia se deixa fascinar pela cultura do Oriente (basta lembrar o japonismo que influenciou os impressionistas no século 19), mas a inserção desse personagem, de forma acrítica e como uma espécie de “deus ex machina”, frusta o bom andamento narrativo e das idéias.
Barbery é uma escritora talentosa e, ao modo de Kafka, sabe como criar um desenlace de impacto à sua narrativa. Quase nos faz esquecer da deficiência anterior, talvez advinda de sua inexperiência, talvez do empenho em tratar de mais coisas que sua história permite. No todo, porém, é um livro digno, de uma autora que merece nossa atenção.

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