MINHA VONTADE DE SER BICHO (2011) - Delírio
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MINHA VONTADE DE SER BICHO (2011)

About This Project

A morte necessária em pleno dia…

 

Encenar pedaços humanos é o grande desafio de “Minha Vontade de Ser Bicho”. Uma busca desesperada de entender porque a despedida pode ser o princípio das coisas. E há tanta Clarice Lispector que pode servir de guia para esta busca! Em cada momento da vida das três mulheres/atrizes/personagens que visitam este espetáculo, há um pouco de cada mistério de vida. Em que momento termina a carne e começa o espírito? E vice versa. Até que ponto as palavras, como flores de pano, são capazes de reproduzir sentimentos? Sim, porque as flores de pano até gostariam de ser tão verdadeiras quanto parecem, mas ao mesmo tempo em que lhes falta a alma silenciosa das flores verdadeiras, elas tem a certeza de que são sim, verdadeiras, mas outras, que apesar da aparência, nada tem com as originais, até porque, como não tem vida, não morrem. E não morrer talvez seja a sua grande frustração. Da mesma forma que as palavras, signos frustrados que buscam comunicação, soam pequenas, falsas e artificiais quando querem dizer o que é impossível de ser dito. E o que faz um espetáculo que tem como ponto de partida a poesia do que é impossível de ser dito? Vai encontrar-se numa dramaturgia de perguntas. Por quê? Por quê? Por quê?  “Minha Vontade de Ser Bicho” não se esconde do enigma, ao contrário, vai em sua direção como um desbravador ou um suicida. Porque a morte, em todas as suas formas, espreita a cada passo. E é na caminhada quase imperceptível desse suicídio poético que se faz o teatro. Não, não nos interessam os personagens, nem os conflitos, nem o começo, nem o meio e muito menos o fim. Interessa-nos o tempo, interessa-nos o som que sai da boca, cheio de desejos de expressões, mas que, imperfeito, mal consegue existir. Interessa-nos o sentimento de não se sentir completo como ser humano e muito menos como artista, enquanto algo mais profundo não se fizer existir, senão no espaço, no tempo. A poética dessa dramaturgia de perguntas vai procurar atores inquietos e enigmáticos, que pesquisam as palavras não como reflexos de sentimentos, mas como vômitos necessários para alguma sensação de “estar” em cena, que pouco ou nada tem a ver com construção de personagem. É um estado de interpretação que se situa entre o micro segundo que separa a vida da morte. Mas como nem nesta última frase as palavras são suficientes para descrever o fato, é preciso permitir-se existir como artista e criador e ao mesmo tempo interpretar a própria dúvida. Clarice Lispector entregou-se de corpo e alma ao desesperador universo das palavras e agarrou-se a elas como quem escala uma montanha de espinhos. E assim, vulnerável e corajosa, fez das palavras o sentido de sua vida. Assim é também nosso espetáculo, um grito humano, com o desejo sincero de ser apenas um grito animal. Mas o espetáculo não é o grito, é o desejo.

Edson Bueno

Adaptação e Direção  EDSON BUENO

 

Elenco

PAGU LEAL

JANJA

MARCIA MAGGI

DIEGO MACHIORO

TIAGO LUZ

 

Cenografia  LUIS ANTONIO SPOSITO

Figurinos  ÁLDICE LOPES

Iluminação  BETO BRUEL

Sonoplastia  CHICO NOGUEIRA

Assistência de Direção  TIAGO LUZ

Projeções  MURILO HAUSER

Assistentes de Projeção  FERNANDO NOGARI/FREDERICO MACHUCA

Programação Visual  MARCOS MININI

Fotografias  CHICO NOGUEIRA

Fotografias/cartaz  DANIEL SORRENTINO

Cenotécnico  ALFRED GOMES/PROSCENIUM

Assistência de Iluminação/Operação de Luz    FERNANDO DOURADO

Operação de vídeo  GUILHERME FERNANDES

Operação de Som  LEA ALBUQUERQUE

Confecção de Boneco  EDSON NAINDORF

Assessoria de Imprensa  THIAGO INÁCIO

Direção de Produção  DIEGO MARCHIORO

Assistência de Produção  ÁLDICE LOPES

 

Realização  GRUPO DELÍRIO CIA. DE TEATRO

 

Este espetáculo estreou no dia 17 de fevereiro de 2011, no Teatro Novelas Curitibanas – Curitiba – PR

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UM ENCONTRO COM A LITERATURA ÍNTIMA DE CLARICE LISPECTOR.

 

“Sou uma feroz entre os ferozes seres humanos – nós, os macacos de nós mesmos, nós, os macacos que idealizaram tornarem-se homens, e esta é também a nossa grandeza. Nunca atingiremos em nós o ser humano: a busca e o esforço serão permanentes. E quem atinge o quase impossível estágio de Ser Humano, é justo que seja santificado. Porque desistir de nossa animalidade é um sacrifício” – Clarice Lispector

 

Clarice Lispector sempre foi uma escritora dominada pela obsessão. Utilizava a delicadeza – e às vezes a contundência! – das palavras como pedras na construção de uma estrada que conduzisse à mais profunda essência. Uma simples frase de um de seus milhares de escritos – Cem Anos de Perdão – dá uma idéia clara desta busca: “As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens”. Seria ingenuidade do leitor de Clarice, imaginar que se trata apenas de uma metáfora da existência humana. Não. Clarice falava ao mesmo tempo dos homens e das pitangas. Da atitude de dar-se para o amor e mastigar uma fruta e até de ser a própria fruta e receber os dentes desejosos da boca faminta.  Sua percepção passava por cima de todas as regras, de todas as aparências e de todas as idéias preconcebidas.

 

Clarice Lispector é a mais original de nossas escritoras. E numa generalização apaixonada, pode-se dizer que é a mais original de “nossos escritores”. Era pensadora da mais pura e rica literatura.

 

Levar ao palco sua história, sua personalidade, seus pensamentos e alguns de seus contos, num espetáculo intitulado “A Morte Necessária em Pleno Dia” é avançar no terreno íntimo do teatro, pelas palavras íntimas de Clarice. Uma escritora que não tinha vergonha de expor-se permite um espetáculo rico, com atores que também tenham coragem para tanto. Afinal, as palavras podem ser mais profundas e contundentes, quando em forma de linguagem teatral, têm a coragem de só dizer verdades. Mas quais? – perguntaria Clarice Lispector. Como a vida, um espetáculo baseado em Clarice Lispector pede para ser feito aos pedaços, como se o corpo da peça, tal corpo físico e espiritual, pedisse para ser desmembrado, para depois ser reconstruído verdadeiro e sincero, ganhando com o desmembramento e remontagem, originalidade, intensidade e essência.

 

Clarice Lispector é uma arqueóloga do ser. Caminha – como caminhará o espetáculo – para camadas profundas do ato de existir. E teatro e platéia experimentarão – como experimenta o leitor – a própria voltagem da vida. MINHA VONTADE DE SER BICHO é um espetáculo/essência, repleto de existência, de aleluias e agonias de ser.

 

 

MINHA VONTADE DE SER BICHO – UMA PROPOSTA CÊNICA

 

“Escrever é procurar entender, é reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada” – Clarice Lispector

 

A melhor forma de construir um espetáculo adaptado de uma obra literária é depositando olhar profundo sobre o próprio escritor. Clarice Lispector é enigmática e misteriosa. Conta-nos tudo nas entrelinhas e sua literatura se encontra – não na palavra – mas no que não foi dito, mas pensado, sentido, experimentado.

 

Parafraseando Clarice, encenar MINHA VONTADE DE SER BICHO é também, através do teatro, procurar entender, reproduzir o irreproduzível. É experimentar com o público a vivência profunda de sentimentos e transcendências.

 

São atores e atrizes, com profissões, idades, experiências diferentes. Ligados por sentimentos comuns à literatura e ao desejo de encontrar outras existências escondidas dentro deles mesmas. “Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário.” Assim são estes atores. Vão – cênica e espiritualmente – retirando de suas faces a infinitas máscaras ali depositadas no decorrer dos anos. E a cada máscara, uma perplexidade! Por se reconhecer, por se desconhecer e também por não reconhecer nas outras, eles mesmos!

 

São atores/não atores à primeira vista, mas desesperados, patéticos, românticos, engraçados, violentos e apaixonados! Despem-se de suas máscaras como quem vai ao chuveiro. E a água que percorre seus corpos nunca é suficiente para desmanchar todas as máscaras que necessitam ser eliminadas. Do próprio ato de ser ator e viver o teatro como experiência de corpo, voz e alma; transformam-se em outros atores/não atores, que fazem do espaço cênico e da própria ação física, uma outra experiência de interpretação teatral, até para eles mesmos.

 

MINHA VONTADE DE SER BICHO é uma encenação de pedaços humanos. Toda a caixa teatral estará à disposição deste princípio.  O ponto de partida de que o público, no momento em que compra seu ingresso na bilheteria, já está habilitando-se a penetrar no universo de Clarice Lispector. A encenação não acontece apenas na sala principal do Teatro Novelas Curitibanas, mas em todos os passos do próprio público desde que chega ao teatro, até o momento em que dele se despede finda a experiência. Sombra e luz, matéria e não matéria, são elementos de narrativa, porque tudo é Clarice: o que é dito porque é, como todo o Teatro do Grupo Delírio, sempre há um grande exercício com a literatura e a palavra; mas também o que não é dito, o que não é visto, o que não é compreensível numa primeira e literal leitura. Um sofá que à princípio era um objeto de encontro social, transforma-se em divã de psicanálise, em alcova de luxúria, em refúgio para o descanso, em leito de morte e finalmente em lixo desnecessário. Assim a luz, os sons, a música, a palavra, a relação física vivida com a platéia e ainda, quaisquer objetos que são eles mesmos e ainda símbolos, estão à serviço da linguagem teatral. São atores de Clarice Lispector e como Clarice não cansam de repetir aos quatro ventos: “Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou o quê? Um quase tudo.”

 

MINHA VONTADE DE SER BICHO é um espetáculo de profundo sentimento. A busca de seu encontro com o público é seu objetivo fundamental. Para compreendê-lo talvez fosse necessário fazer um outro, e rápido exercício de compreensão: os profundos olhos de Clarice Lispector, são os olhos de todos os atores; e o contrário, os olhos de todo o público são os olhos da humanidade, que assiste, poeticamente estarrecida, a experiência da vida íntima proposta por Clarice em todos os seus escritos, uma literatura de intimidade, uma literatura que se escancara, que não tem pena de si mesma e ainda pede (implora!) o amor de seu interlocutor.

 

“… Segura a minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina, estou indo para um inferno de vida crua. Não me deixes ver porque estou perto de ver o núcleo da vida… Segura a minha mão… Chegarei ao nada e o nada será vivo e úmido…”

 

É da essência do Grupo Delírio Cia. De Teatro, vivenciar o teatro e a literatura. Nos últimos anos, pelos mais diversos caminhos das narrativas teatrais, fizemos o nosso teatro pelas palavras de Machado de Assis, Fernando Pessoa, Franz Kafka, Nelson Rodrigues e Paulo Leminski. Permitindo-nos modificar a experiência cênica, conforme a sugestão que a arte desses grandes escritores nos sugeriu. Deles temos feito nosso teatro. E assim, libertos de dogmas e experiências passadas, vamos construindo um teatro de perfil muito contemporâneo, preocupado com experiências de novas linguagens que passam pela própria encenação como forma, mas também pelo que representa na experiência viva que é a relação ator/plateia. E temos buscado influências de dramaturgias contemporâneas, não apenas brasileiras, mas de outros países; como o exercício de construção e desconstrução do ator e sua interpretação; conscientes que somos de que o teatro é cada vez mais uma experiência de reflexão sobre ele próprio e seu conteúdo e menos uma relação de passividade, vivida pelo público. Não é um exercício tão simples, pede investigação e elaboração; pesquisa comprometimento e responsabilidade.  Nosso teatro busca, obsessivamente, fazer-se fundamental em seu tempo. Não é entretenimento, é arte! Cada espetáculo encenado pelo Grupo Delírio Cia. De Teatro é uma experiência de transformação, é ação inquieta e viva em dúvidas e perguntas. É fruto da indignação! A nossa entrega ao objeto que se faz matéria prima para um espetáculo, passa ao largo de nossas ambições pessoais; é um mergulho de cabeça no desconhecido. É fazer-se o outro. Assim, que essa nossa nova experiência proposta é um exercício de paixão e loucura. É vestir-nos de Clarice Lispector, tirar nossas roupas próprias e vestir-nos do teatro que não conhecemos ainda; para ao final do processo sairmos enriquecidos pelo novo. Num outro (e no mesmo!) momento, proporcionarmos ao público, fruto de nosso trabalho e nossa arte, uma verdadeira, profunda e sincera experiência poética com nosso próprio ato de fazer teatro e a literatura viva e necessária de Clarice Lispector. É a nossa pulsação de vida. Fazer teatro e amar a literatura e o teatro.

Date

2001

Category

Arte, Era de Ouro

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