O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (2008) - Delírio
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O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (2008)

About This Project

A EXPERIÊNCIA DA PALAVRA COMO EXERCÍCIO DE ENCENAÇÃO

 

Nos últimos anos de seu trabalho intenso, o Grupo Delírio Cia. De Teatro, tem se aprofundado no “teatro como palavra”. Até que ponto a palavra é reflexo do pensamento verdadeiro? Até que ponto a palavra é transformadora? Até que ponto a palavra é capaz de estabelecer uma interação verdadeira com o público, a ponto de fazê-lo refletir sobre o conteúdo do espetáculo e, ainda assim, deixar-se seduzir pela beleza contida na própria palavra. A palavra como “Dionísio” e a palavra como “Apolo”. Conscientes de que a imagem, a ação e o gesto teatral são elementos essenciais à própria linguagem cênica, o Grupo Delírio faz da forma como a palavra é construída, o principal elemento de suas encenações. Para isso, alguns dogmas do teatro têm que ser questionados: a quarta parede, a construção da personagem, o conflito, a narrativa aristotélica e a ilusão da verdade. Cada um, em seu momento, é questionado durante a encenação e, mais ainda, cada um deles serve de apoio à encenação para uma reflexão sobre o conteúdo abordado e ainda, uma reflexão sobre o porquê da escolha do teatro como canal de expressão, comunicação e arte. Afinal, homens saem de suas casas para encenar histórias para outros homens, que também saem de suas casas, para vê-los praticar a encenação. Esse ritual, aparentemente simples na ação, mas complexo nas questões sociológicas, psicológicas e antropológicas, é levado às últimas conseqüências na experiência da “palavra” que o Grupo Delírio se propõe ao encenar “O Evangelho Segundo São Mateus”. Conversar sobre a palavra de Jesus Cristo, usando palavras míticas da Bíblia (O Evangelho Segundo São Mateus) e palavras poéticas do Oitavo Poema do Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa. Cada um a seu modo, reverencia, não necessariamente a aventura de Jesus Cristo (seja ela, verdadeira, mítica ou religiosa), mas o que ele disse e porque disse. Onde a “palavra” é mais importante que a história e até onde ela é suficiente para a compreensão da vida e ainda, para a evolução do espírito e o prazer do corpo? Por que deixamos de ouvir o melhor, por preconceito ou medo? Afinal, não é a palavra o melhor meio de compreensão e comunicação entre os homens? A proposta da encenação é a de 05 (cinco) atores, despidos de possibilidades de persona e tendo apenas suas próprias experiências de vida, de espírito livre e coração aberto, mas serelepes e inteligentes, abrir mil e uma possibilidades para a interpretação das duas experiências (São Mateus e Fernando Pessoa) com a “palavra” atribuída a Jesus Cristo. O espetáculo assume contornos de celebração e ritual, enquanto os atores fazem o pão em cena (não como “faz de conta”, mas de verdade), servem café e vinho para a platéia, e contornos humanistas, quando o ensinamento e a poesia tangenciam-se para reconhecer que o encontro ator/público, aberto, fraterno, suave e sincero, pode ser estendido às relações humanas, sejam em que “teatro” elas se apresentem. Todo o exercício cênico está a serviço da criação de um tipo de sinceridade e intimidade entre os atores e o público, para que o que esta sendo dito no palco seja compreendido como significado de vida e como celebração da poesia, da arte e da beleza; fundamentais para a vida.

 

SINOPSE DO ESPETÁCULO

 

Cinco atores que se dizem “padeiros”,ocupam uma cozinha e enquanto fazem o pão, desde a preparação do fermento, o crescimento e o ato de assar, conversam sobre o “Evangelho de São Mateus”. Ao mesmo tempo, dois deles, interpretam a mãe e o filho, extraídos poeticamente do “Oitavo Poema do Guardador de Rebanhos”, de Fernando Pessoa, onde o filho conta para sua mãe que tem um amigo fugido do céu, como o Jesus de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) que lhe conta uma nova possibilidade para uma história tão antiga, que perpétua, como a de Jesus Cristo. À medida que o pão vai sendo feito, a história é contada, não pela ação, mas pela palavra e pela reflexão sobre ela, desde a anunciação até a ressurreição, seguindo o formato poético e filosófico de São Mateus. Conexões com outras leituras da mesma história são feitas como as do filme de Píer Paolo Pasolini, a filosofia de Friedrich Nietzsche, a visão humanista de Clarice Lispector. A criatura humana é coloca num primeiro plano enquanto rituais milenares como o de fazer o pão, comer e beber o vinho são celebrados. O público, através da visão dos “padeiros” é convidado a perceber outros aspectos dessa mesma história e ao final é convidado a subir ao palco para, com os atores, montar a ceia da páscoa, tomar vinho, comer o pão feito e refletir livre e abertamente sobre o que foi dito durante o espetáculo. Algumas passagens como o “Sermão da Montanha”, as “Parábolas” e o próprio poema de “Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, são destaques e, longe de criar ilusão, mas buscando a aproximação, os atores revezam-se nos diversos personagens que fazem parte da história que para uns é verdadeira, para outros, mítica e para outros, fé religiosa. Importante é o que se fala, mais do que uma possibilidade de verdade histórica.

Adaptação do próprio Evangelho e de “O Guardador de Rebanhos”, de Fernando Pessoa, por Edson Bueno

Direção: Edson Bueno

Cenógrafo: Gelson Amaral

Iluminação: Beto Bruel

Figurinos: Áldice Lopes

Sonoplastia:  Marco Novak

Fotografias: Chico Nogueira

Operação de Luz: Fernando Dourado

Operação de Som: Tiago Luz

Produção: Edson Bueno

Realização: GRUPO DELÍRIO CIA. DE TEATRO

Elenco:

  • Guilherme Fernandes
  • Regina Bastons
  • Edson Bueno
  • Janja
  • Gustavo Saulle
  • Crítica de Valmir Santos, durante o Festival de Curitiba.

 

BUENO FOMENTA CONTRADIÇÕES BÍBLICAS – por Valmir Santos

 

A arte costuma encontrar nas passagens bíblicas um terreno fértil. O Grupo Delírio, de Edson Bueno, assenta o seu com O Evangelho Segundo São Mateus, o livro do Novo Testamento farto em metáforas que Jesus teria proferido. A tentação em traduzir metáforas em cena pode ser maçante. Felizmente, o espetáculo foge ao dogma e aproxima-se das escrituras sagradas com alguma profanidade, tornando-as mais reveladoras e instigantes do que reza a liturgia.

Salmos e versículos viram plataformas para explorar o campo das ideias, da filosofia, da poesia e do cinema com invocações a Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Nietzsche, Pasolini. Esse nível de elaboração é tributado ao modo como Bueno preza a palavra em seus trabalhos. Aqui, o verbo é ainda mais poderoso, por isso demanda atores que articulem bem a fala, que expresse entendimento do que diz, comunique o colorido de cada vocábulo. E o elenco o cumpre a contento.

A incorporação de versos do poema oitavo de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, dá o tom do pensamento crítico no trato com os fundamentos religiosos e a urgência em humanizar o mito. O poeta português escreve sobre a visão de um Jesus menino que corre atrás de raparigas, desdenha do Pai, rouba milagres. “Ele é o humano que é natural/ Ele é o divino que sorri e que brinca/ E por isso é que eu sei com toda a certeza/ Que ele é o Menino Jesus verdadeiro”.

É a esse espírito que a peça corresponde. Na sessão a que assistimos, impressiona a atuação naturalista do elenco em meio ao feitio coletivo do pão enquanto contam o Evangelho. Diego Marchioro, Luiz Carlos Pazello, Guilherme Fernandes (em revezamento com Marcelo Rodrigues de Oliveira), Martina Gallarza e Regina Bastos estão longe de um jogral ou de um coro com suas marcações. Ao contrário, põem-se serenos e serelepes, graciosos na medida, sem banalizar as entrelinhas.

Com o quadro A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, suspenso ao fundo, os atores ocupam a cozinha do que poderia ser uma padaria: mesas e cadeiras de madeira, aventais, vassouras, utensílios e ingredientes para fazer a massa. Sob luz dominantemente geral, “branca”, eles entabulam as fábulas com leveza, olhos firmes no espectador.

Nem precisa romper a quarta parede, pois a conversa está dada, mas o espetáculo vai além e reafirma a comunhão extensiva ao encontro do artista com o público. Partilha vinho, café e pão (fruto da massa preparada no dia anterior), inclusive convidando parte da platéia a juntar-se à mesa na cena da Santa Ceia.

Em duas décadas e meia de Grupo Delírio, Edson Bueno diz buscar agora “um teatro muito no presente e que se compreenda cada vez mais como uma experiência no vento, como disse Peter Brook”, escreve no programa do espetáculo. Seu Evangelho Segundo São Mateus é luminoso não só pelo conteúdo humanista, mas por não desprezar o vetor da arte em nenhum momento, o que confere consistência poética à montagem da qual toda a equipe parece se apossar. Parafraseando Mateus, eis uma criação prudente como a serpente e simples como o pássaro.

Date

2001

Category

Arte, Era de Prata

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